O governo chinês está muito preocupado com a higiene nas casa de banho públicas do seu país, afinal, um milhão e duzentos mil milhões de pessoas fazem muita m****, e daí não vai de modas: depois de impor aos casais a política do filho único, «podem rematar à baliza as vezes que quiserem mas só podem marcar um golo», agora querem limitar o número de moscas nas casas de banho em locais públicos, cafés, restaurantes, centros comerciais, estações de comboios, aeroportos e afins, até mesmo aqueles contentores que se vêem nos estaleiros das obras, decretando que em cada uma só poderá haver um máximo de duas moscas, e constituiu para isso brigadas de fiscalização (que fazem os inspectores da ASAE parecer uns santinhos) para garantir que não há ajuntamentos de moscas, que a latrina tem o número de moscas legalmente permitido pelo governo. O que os inspectores farão às moscas prevaricadoras não é claro, mas cheira-me é que com esta medida o governo chinês vai empregar mais uns quantos milhões cuja ocupação vai ser literalmente andar às moscas, levando-me a crer que, com a quantidade de sanitários públicos necessários para acolher a trampa de um país habitado por um milhão e duzentos mil milhões de pessoas, decerto ali não irá haver problemas com o coiso.
Minutos Contados
Os putos
Nos verões em que ainda era possível a criançada brincar à noite na rua, saíamos de casa a seguir ao jantar e juntávamo-nos no telhado dos currais da Mira que formava uma espécie de terraço. Eu, a Carla, o Ricardo, a Sara, a Anita, a Nela, o Pimenta, o Hélder, o Moisés, por vezes a Júlia e o Carlos, outras vezes o Fernando da rua de baixo, e muito de vez em quando a Andreia. Uns iam ao papel velho à antiga fábrica do pai do Moisés para fazermos a fogueira; outros acendiam o lume e os mais ousados trepavam o muro do quintal e iam roubar as espigas de milho tenras para assarmos no espeto e banquetearmo-nos com os grãos doces a pingarem manteiga. Brincávamos às escondidas, e eu tinha um sítio onde me enfiava sempre e embora todos soubessem disso nunca ninguém me encontrava, porque achavam sempre que era um esconderijo tão batido que eu não iria para lá. Os mais corajosos enfiavam-se na quelha, uma vielazinha entre o quintal do milho e as ruínas da casa dos meus avós, mas só quando havia lua, para não se assustarem com o Pelintra que costumava andar por lá e para não correrem o risco de enfiar os pés na bosta que as vacas ali deixavam a caminho da ordenha. Picávamo-nos uns aos outros, uns a cantarolarem a música dos Rockivários para me irritarem, outros a grasnarem o Anita do Marco Paulo, e o Pimenta a perseguir a Nela com o seu Nela-Panela-Nela-Panela-Nela-Panela até que um dia ela se fartou da brincadeira e lhe mandou um calhau à testa e lhe rachou a cabeça. O Pimenta teve de ser cosido e nunca mais lhe chamou Nela Panela. Um dia alguns de nós enfiámo-nos na 4L cor de beringela do pai da Nela só pela piada e a certa altura o raio do carro destravou-se e começou a deslizar pela rua abaixo sem que nenhum de nós tivesse a presença de espírito de puxar o travão de mão. Salvou-nos o Ruca, o irmão da Nela, que veio disparado do meio do nada e travou o carro. Jogávamos ao stop até altas horas da noite, ou até passar um carro-patrulha da polícia e nos mandar a todos para casa a toque de caixa. Mas do que mais me lembro é do gosto do milho com manteiga e do sabor a proibido que aquilo tinha.
As vacas já não deixam bosta na quelha. A quelha já não existe. As ruínas da casa dos meus avós foram arrasadas e hoje em dia só lá há silvas. O quintal deixou de dar milho e hoje há lá um prédio onde mora o presidente da câmara. O curral da Mira foi deitado abaixo para construir a casa do filho dela. Não há espigas assadas em fogueiras ateadas com papel velho. É pena.
| Isto é: |
Cheira mal
Uma terrinha qualquer algures nos States vai submeter a votação pública uma proposta que visa impedir que os funcionários estatais usem perfume no local de trabalho, e se por momentos pensei em como uma lei destas me teria dado jeito no 11º ano para não ter de gramar com o fedor a Tresor da Emília Leal de cada vez que vinha às carteiras corrigir os trabalhos de Técnicas de Tradução, por outro não pude evitar rir-me com a ideia de se usar o dinheiro dos contribuintes para um fim tão ridículo, quer dizer, se é para desperdiçar fundos públicos, é melhor fazê-lo em ordenados milionários para gestores públicos que não fazem a ponta de um corno, ao menos sempre se incentiva o consumo, nem que seja de gasolina para alimentar os carros de alta cilindrada, mas estava eu a dizer que o fundamentalismo democrático quer proibir as pessoas de usarem perfume no local de trabalho, e pergunto-me aonde é que isto irá parar, qual o limite para esta gente, eu não gosto de saias de balão e daquelas calças à dread com os fundilhos à altura dos joelhos, será que posso sugerir um referendo para proibir as pessoas de as usarem, e já agora os ténis com luzinhas que piscam e as correntes de ouro maciço penduradas ao pescoço, as T-shirts com fotografias de wrestlers, e sapatos vela, detesto sapatos vela, bem que poderiam fazer referendos para proibir essa coisada toda, para quê só os perfumes, se a nossa liberdade termina aonde começa a liberdade dos outros, porque é que tenho de gramar com o fedor a perfume de outra pessoa, enfim, é bem mais fácil proibir, porque não?, eu estou no meu direito de não ter de ficar enjoada com o cheiro a Tresor, mas a questão fundamental é que a Emília Leal tinha o direito de o usar mesmo tratando-se de algo nauseabundo na minha opinião, enfim, já na altura em que tive de ler o Macrotendências achei um absurdo que tudo e mais alguma coisa fosse submetido ao escrutínio público, desde a cor da iluminação de Natal da terrinha ao horário de funcionamento da única padaria do bairro, isto no meu entender parece-me o poder da democracia levado ao extremo, enfim, para um sítio que se gaba de ser o berço da liberdade de expressão, esta história de querer proibir o uso de perfume no local de trabalho cheira muito mal.
| Isto é: |
Leitor nº 2555
Hoje de manhã ao colocar o colar ao pescoço lembrei-me da Sara, que foi quem mo ofereceu de prenda de aniversário há 20 anos, e pus-me a pensar que o melhor presente que ela me deu não foi este colar, mas sim no dia em que — tinha eu sete anos e ela oito — a Sara entrou em minha casa e me perguntou se eu queria ir com ela à biblioteca. Disse-me que era aquele edifício atrás da Câmara e ao pé da farmácia do Zeca, sabes, em frente à Creche, e lá há montes de livros que podemos trazer para casa para ler. Percorri com ela os cinco minutos que separavam as nossas casas do local e ao entrar lá a primeira impressão que tive foi o enorme respeito reverencial imposto pelo silêncio. Fomos ao balcão e a dona Graça deu-me uma ficha para eu preencher com a minha caligrafia tosca de segunda classe e a seguir deu-me um pequeno cartão cor-de-rosa com o meu nome e o número 2555 que colocou numa bolsinha de plástico dizendo-me que era o meu número de leitora. Ter aquele cartão fez-me sentir importante, como se em vez de ser apenas uma miúda de sete anos fosse alguém com acesso a um mundo restrito e privilegiado, uma espécie de reino dos céus.
A partir daí a Biblioteca Dr. Renato Araújo tornou-se a minha casa. As peregrinações diárias sucediam-se, às vezes mais de uma vez por dia, para percorrer as estantes com olhos ávidos e apoderar-me dos tesouros da Sophia, do António Torrado, da Ilse Losa, da Matilde Rosa Araújo, e outros tantos, dos livros do Pequenu que a minha mãe considerava gigantescos, «se leres isso tudo ainda vais acabar por ter de usar óculos», e depois de escolher o saque do dia preenchia o pequeno papelinho verde da requisição com as quotas, só podes levar três, dizia-me a dona Graça, e eu fingia que não ouvia, metia sempre mais em cima do balcão e ela voltava a insistir, são só três, já sabes, e eu ia a correr com eles para casa, enfiava-me no quarto e lia, lia como se o mundo fosse acabar, lia como se tivesse medo que o tesouro me pudesse ser roubado a qualquer momento, e a seguir ia trocá-los por outro, e a paciente dona Graça dizia-me só podes levar três por dia, e eu fazia o meu melhor sorriso de súplica com ar de cachorrinho, mas ela era inflexível, são as regras, não podes levar mais de três por dia, e eu amaldiçoava interiormente aquele número odioso e ia buscar mais livros à estante e sentava-me diante de uma das enormes mesas de madeira escura e pesada que cheiravam sempre a óleo de cedro até a dona Graça vir ter comigo e dizer-me vamos fechar, tens de ir embora, e eu levantava os olhos e via que o tempo voara sem eu dar por isso. Lembro-me de cada cadeira, de madeira escura com assentos de napa verde-azeitona, das estantes para adultos — só podes levar livros dali quando fizeres doze anos, e volta e meia tentava levar um mas era sempre apanhada, já te disse, estes livros não são para a tua idade, mas eu fazia batota e ficava a lê-los lá dentro, a dona Graça disse que eu não podia leva-los para casa mas não que não os podia ler —, das mesas escuras onde meia dúzia de gatos-pingados se debruçavam sobre os seus próprios tesouros ou escrevinhavam em cadernos, do piano de cauda a um canto da sala coberto por uma lona cinzenta que só era destapado para os recitais de piano que por vezes surgiam noticiados n’ O Regional, da textura da alcatifa, até mesmo do chiado das dobradiças das portas ao abrir, da curiosidade despertadas pelas escadas que iam para o primeiro andar, o que haveria lá em cima, lembro-me das estantes de poesia e das discussões amigáveis que tinha com o Alberto, um outro frequentador habitual que passava lá quase tanto tempo como eu, sobre qual o melhor, se Pessoa se Eugénio, a Florbela e uma vez mais a Sophia, e lembro-me de pensar que um dia também quero escrever assim, um dia quero ler todos os livros que existem no mundo, um dia vou ter um paraíso como este.
Hoje já não vou à Biblioteca Dr. Renato Araújo, mas o presente que a Sara me deu ainda hoje continua gravado em mim, como se tivesse sido marcado a fogo. E ocorreu-me que nunca tinha agradecido à Sara por me ter levado a um mundo completamente novo.
Obrigada, Sara.
A partir daí a Biblioteca Dr. Renato Araújo tornou-se a minha casa. As peregrinações diárias sucediam-se, às vezes mais de uma vez por dia, para percorrer as estantes com olhos ávidos e apoderar-me dos tesouros da Sophia, do António Torrado, da Ilse Losa, da Matilde Rosa Araújo, e outros tantos, dos livros do Pequenu que a minha mãe considerava gigantescos, «se leres isso tudo ainda vais acabar por ter de usar óculos», e depois de escolher o saque do dia preenchia o pequeno papelinho verde da requisição com as quotas, só podes levar três, dizia-me a dona Graça, e eu fingia que não ouvia, metia sempre mais em cima do balcão e ela voltava a insistir, são só três, já sabes, e eu ia a correr com eles para casa, enfiava-me no quarto e lia, lia como se o mundo fosse acabar, lia como se tivesse medo que o tesouro me pudesse ser roubado a qualquer momento, e a seguir ia trocá-los por outro, e a paciente dona Graça dizia-me só podes levar três por dia, e eu fazia o meu melhor sorriso de súplica com ar de cachorrinho, mas ela era inflexível, são as regras, não podes levar mais de três por dia, e eu amaldiçoava interiormente aquele número odioso e ia buscar mais livros à estante e sentava-me diante de uma das enormes mesas de madeira escura e pesada que cheiravam sempre a óleo de cedro até a dona Graça vir ter comigo e dizer-me vamos fechar, tens de ir embora, e eu levantava os olhos e via que o tempo voara sem eu dar por isso. Lembro-me de cada cadeira, de madeira escura com assentos de napa verde-azeitona, das estantes para adultos — só podes levar livros dali quando fizeres doze anos, e volta e meia tentava levar um mas era sempre apanhada, já te disse, estes livros não são para a tua idade, mas eu fazia batota e ficava a lê-los lá dentro, a dona Graça disse que eu não podia leva-los para casa mas não que não os podia ler —, das mesas escuras onde meia dúzia de gatos-pingados se debruçavam sobre os seus próprios tesouros ou escrevinhavam em cadernos, do piano de cauda a um canto da sala coberto por uma lona cinzenta que só era destapado para os recitais de piano que por vezes surgiam noticiados n’ O Regional, da textura da alcatifa, até mesmo do chiado das dobradiças das portas ao abrir, da curiosidade despertadas pelas escadas que iam para o primeiro andar, o que haveria lá em cima, lembro-me das estantes de poesia e das discussões amigáveis que tinha com o Alberto, um outro frequentador habitual que passava lá quase tanto tempo como eu, sobre qual o melhor, se Pessoa se Eugénio, a Florbela e uma vez mais a Sophia, e lembro-me de pensar que um dia também quero escrever assim, um dia quero ler todos os livros que existem no mundo, um dia vou ter um paraíso como este.
Hoje já não vou à Biblioteca Dr. Renato Araújo, mas o presente que a Sara me deu ainda hoje continua gravado em mim, como se tivesse sido marcado a fogo. E ocorreu-me que nunca tinha agradecido à Sara por me ter levado a um mundo completamente novo.
Obrigada, Sara.
| Isto é: |
Muito à frente
Afinal o grupo de estudo que pretende escortanhar a rede de transportes públicos da área metropolitana de Lisboa mais ou menos da mesma maneira que um miúdo de três anos agarra numa tesoura e numa revista da mãe e a começa a recortar, assim à toa e sem saber muito bem o que está a fazer, até que tem algumas ideias para relançar a economia nacional, porque sem transportes públicos, as pessoas têm de andar de transporte particular, de carro ou de mota ou de carroça ou trotinete ou bicicleta ou até mesmo segway, porque não, então descer as colinas ali na zona do Castelo de segway seria uma descida e tanto, só adrenalina, ou então com o fim das carreiras de barcos o pessoal vai mas é a nado para a outra margem, poupam no ginásio e faz bem à saúde, o que significa menos gastos para o SNS, mas dizia eu que a ideia é fazer a malta andar de transportes particulares, assim é da maneira que o estado ganha mais tanto no ISPP como no IVA (esta é outra muito gira, cobrar-se imposto do imposto, que bonito, nem o xerife de Nottingham se lembrou de uma desta, estão a ver), e assim também se incentiva a venda de carros e motas e afins, e com o desgaste as oficinas de reparação auto e as vendas de pneus também terão direito a uma fatia do bolo, o que é preciso é pensar antecipadamente, manter os olhos postos no futuro, e com menos transportes públicos reduz-se a fuga ao fisco dos carteiristas que não pagam IRS dos gamanços, digam lá se não é de génio, ou então, aqueles que não podem usar o transporte particular andam à pata, querem melhor incentivo do que este para a produção de calçado nacional — S. João da Madeira e Felgueiras, cheguem-se à frente se faz favor —, e quanto àquele pessoal que se queixa que depois não pode voltar para casa porque sai demasiado tarde do trabalho também não têm razão para se queixar, porque como vão ficar sem emprego vão deixar de ter esse problema, ou então é uma antecipação para o aumento do horário de trabalho, se a pessoa tiver de trabalhar 18 horas por dia vai a casa fazer o quê, mais vale vender a casa e assim nem tem de se preocupar mais com o aumento das taxas de juro e as dívidas ao banco e o aumento do IMI e essas coisas todas, enfim, bem vistas as coisas, o grupo de trabalho que anda a escortanhar a rede de transportes públicos está mas é muito à frente…
A ouvir: When they come for me, Linkin Park
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Foi assim que aconteceu
Queres saber como foi, meu amor? Eu conto-te. Primeiro tiveram de me espetar a agulha para meter o soro e não estavam a conseguir, e só ao fim de mais de uma hora e depois de me terem deixado a mão toda esburacada é que lá conseguiram enfiá-la, estás a ver este sítio aqui, este pontinho escuro na parte de dentro do pulso?, foi aqui, e a seguir levaram-me para outro sítio, e quando lá entrei fui tomada por um medo irracional — acho que medo irracional é um pleonasmo, todos os medos são irracionais — , talvez tivesse tido do frio que fazia lá dentro do bloco operatório, mas arrepiei-me toda e baixei a cabeça e disse baixinho para ninguém ouvir «tenho medo», e depois espetaram-me outra agulha, não te vou dizer aonde para não te assustares, sabes, amor, não te preocupes, era para não me doer quando estivessem a fazer a cesariana, e a partir daí começou tudo a ficar difuso, foi como se uma névoa me tivesse envolvido, ouvia as vozes mas as vozes eram abafadas pelas máscaras e não distinguia bem o que estavam a dizer, e virei os olhos para o aparelho ao meu lado que media a tensão arterial e ia vendo os números a descerem, a descerem, a descerem, e quando olhei e vi que marcava 59/38 (creio que nunca me irei esquecer desses dois pares de números e do medo que senti ao vê-los) assustei-me e a partir desse segundo começaram a subir outra vez, e foi quando me disseram que te ia ver e te levantaram por cima do pano verde, sabes, amor, da primeira vez que te vi não estavas como os recém-nascidos costumam estar cheios de sangue e líquido e gordura, não, estavas limpo, limpo e cinzento, e a tua cor encheu-me de terror porque durante uma fracção de milésimo de segundo pensei o pior, mas então tu mexeste os olhinhos e vi que afinal estava tudo bem e senti as lágrimas a escorrerem-me dos olhos para a cara ao ver aqueles dois pontinhos de luz, e a partir daí já mais nada me importou porque às 22 horas e 27 minutos do dia 31 de Outubro de 2006 passei a ter dois sóis na minha vida.
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Da importância de um caixote feio
Não sei porquê mas hoje lembrei-me da velha televisão a preto-e-branco da Blaupunkt, um caixote feio que nos meus quatro anitos parecia enorme, com botões em que tínhamos de carregar de cada vez que queríamos mudar do 1º para o 2º canal, exacto, é verdade, na altura não tínhamos aquele problema do Springsteen em 57 channels and nothing on, era o 1 ou o 2, mais nada, e é curioso que só me lembre do último dia em que essa Blaupunkt esteve lá em casa, recordo-me de estar a dar o último episódio de uma telenovela qualquer chamada Pai não sei das quantas, em que havia uma tal de Maria Preta que trabalhava num cabaré e eu via aquelas lantejoulas e penas e plumas e imaginava como seria se a televisão as mostrasse a cores, que pena ela só vir no dia seguinte, menos vinte e quatro horas antes e eu teria visto todas aquelas cores, que chatice, assim só vi o jegue do Nezinho ataviado com fraldas e o prefeito Odorico Paraguaçu a bradar «poooovo dji Sucupira», e essa televisão a cores era uma Oliva, produzida na altura em que aquilo ainda não era uma ruína pasto para agarrados e onde se faziam televisões, torneiras e máquinas de costura, e também tinha botões para mudar do 1º para o 2º canal, comandos, o que é isso, enfim, a Blaupunkt era uma espécie de símbolo da família, porque segundo os anais da história familiar essa televisão impediu que o meu pai emigrasse para França — o argumento para os meus irmãos não estrebucharem era que ia ganhar dinheiro para comprar uma televisão, tida como a oitava maravilha do mundo para os miúdos pequenos que eram na altura, e vai a minha mãe cala-se muito caladinha e pela primeira e única vez na vida comprou uma coisa a prestações e mandou entregá-la lá em casa para gáudio da criançada, estás a ver, já não tens de ir para França para se comprar uma televisão, deixando-o sem argumentos, enfim, é curioso pensar como é que um caixote feio como aquele tinha tanta importância na vida das pessoas, com toda a gente a reunir-se em volta do aparelho observando um silêncio religioso, chiu, está a dar a telenovela, cala-te, deixa-me ouvir as notícias, quando hoje em dia a televisão serve muitas vezes de ruído de fundo, de companhia, quase como o Chico, o papagaio da minha madrinha que morreu de ataque cardíaco durante um mini-tufão que destruiu a marquise onde a gaiola dele estava, que não dizia nada de jeito mas estava ali, presente. O mais engraçado e irónico disto é que me lembro perfeitamente da Maria Preta e do Odorico Paraguaçu de há trinta anos, mas não me recordo de uma única imagem que tenha visto ontem na televisão (Samsung, já agora).
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