Bang Bang


Uma vez mais andaram aos tiros nas terras do Tio Sam, como se ainda vivessem no velho Oeste, e mataram meia dúzia de uma enfiada, e não sei se hei-de ficar mais chocada com as mortes ou se com a indiferença dos americanos que continuam a achar que ter armas é que é bom, torna-os mais machos ou sei lá, e preferem armar-se em Yosemite Sam de bacamarte em punho a tentar acertar no Bugs Bunny, e que chatice, nunca acertam no diabo do coelho mas acertam sim em meia dúzia de desgraçados e desgraçadas que tiveram o azar estar no local errado à hora errada, mas quem é que os mandou estarem nas aulas na universidade, ir à universidade não serve para nada a não ser para gastar dinheiro e perder tempo, porque depois saímos de lá com um canudo na mão que nem para enfeitar a parede serve porque é demasiado feio e inestético, nem todos são o Magritte nem o Dali, enfim, mas se os coitados não estivessem nas aulas na universidade e estivessem antes a virar hambúrgueres no McDonald’s para engordar os americanos já gordos talvez não tivessem morrido, e não me levem a mal porque não quero satirizar com a morte de meia dúzia de inocentes, mas este género de coisas chocam-me, adiante, se estivessem a trabalhar em vez de estarem inocentemente a investir na educação e formação para poderem vir a ter um futuro radioso de certeza que não teriam morrido, porque os diplomas só servem para sermos explorados pelos empregadores, até mesmo pelo Estado que é o maior empregador precário deste país, mas pronto, o bicho homem não é diferente das outras espécies, todos lutamos por comida ou pelo território ou pela continuação da espécie, não é por termos pensamento racional que nos distinguimos dos nossos amigos de quatro ou mais patas, ou até mesmo dos sem patas ou dos de cem patas, todos lutamos pelo instinto porque o mundo continua a ser uma selva, mesmo com edifícios bonitos do Gehry, do Owen Moss ou da Hadid, mesmo com o Alhambra e as pirâmides e Angkor Vat isto ainda é uma selva, ainda que com carros e aviões e barcos e motas e trotinetes e um sem-fim de meios de transporte e com obras de arte e pontes e estradas e canais e tudo, ainda assim somos uns animais que andam sempre à luta uns com os outros porque isso já faz parte de nós, e o Marx e o Engels deviam ter percebido que até mesmo nas outras espécies animais e mesmo vegetais há sempre o mais forte, o que engorda mais e o que morrer à fome porque não é suficientemente rápido ou expedito, quantos leitões morrem porque a porca não tem tetas que chegue para todos, mas pronto, lá por não ter o que acho que devia ter não ando aí aos tiros, bang bang morreste, limito-me a andar na minha vidinha de Coelho Branco com os olhos bem abertos e orelhas no ar à espreita de perigo porque na selva urbana também há predadores, e por mais que evoluamos nunca haveremos de deixar de ser uns bichos sedentos de sangue, e há-de haver sempre alguém a fazer bang bang estás morto porque é assim que somos, antes era pum pum com mocas e cepos, hoje é com armas de fogo e em última análise a culpa deste bang bang é dos gajos que inventaram a pólvora, mas porque raio é que não se meteram antes a fazer tricô ou a limar as unhas?
15/Fevereiro/2008

A ouvir: Democracy, Leonard Cohen

Coitadas das galinhas

Li hoje de manhã no jornal uma notícia que me fez ficar a pensar para com os meus botões. Era uma coisa pequena, mas que pelos vistos merecia ser divulgada a todo o país como se uma catástrofe se tratasse, sobre um barracão que ardeu já não me lembro onde e que entre prejuízos materiais de umas duas ou três bicicletas e talvez uma mota que arderam, não me recordo se mais alguma coisa, e que também provocou a morte a oito galinhas.
Não tenho nada contra as galinhas, coitadinhas, foi uma pena terem virado churrasco quando ainda cacarejavam e punham ovos, mas espantei-me ver num jornal de tiragem nacional que tinham morrido oito galinhas como se não houvesse mais nada de importante para se noticiar neste país. Vá lá que ainda salvaram as restantes e mais um ou outro porco que por lá andavam, coitadas das galinhas que não tiveram culpa de nada mas que se tornaram um acontecimento por terem sido imoladas e sacrificadas, quais Joanas d’Arc de asas e penas, e estou ansiosa por ver amanhã no mesmo jornal se noticiam o funeral das pobres aves, porque dá para ver que hoje em dia na comunicação social vale tudo, há que ter assunto para encher as páginas e para fazer os telejornais durarem horas, nem que seja fazendo directos em plena tempestade de neve na Guarda para perguntar aos desgraçados dos transeuntes que têm o azar de terem de sair à rua se estão com frio, ou então para noticiar o estudo que dá conta que as lagostas afinal sentem dor, coitadas, a essas acontece sempre o mesmo que às pobres galinhas, são cozidas vidas, e pergunto-me se é preciso um estudo para perceber que um animal que é cozido vivo sente dor, e lembro-me de uma observação muito pertinente do Vergílio Ferreira, que perguntava porque é que é cruel matar um cão e não o é matar uma mosca, eles sofrem o mesmo, mas quem somos nós para saber o que se sofre quando se morre, porque que eu saiba, ainda ninguém voltou do outro lado para contar como foi.

04/Fevereiro/2008

A ouvir: A Pain That I’m Used To, Depeche Mode

Monstro das bolachas

Tenho em casa um monstrinho das bolachas que de cada vez que se apanha na cozinha mete-se à frente do armário/despensa a bater na porta e a palrar, ou melhor, a exigir «dá-dá-dá-dá-dááááá», e é giro ver aquela coisinha pequena, uma pessoa em miniatura, já a demonstrar aquilo que quer, enfim, adiante, e lembrei-me de umas bolachas que adorava em pequena, na altura que ainda não precisava de contar os minutos, só aqueles que faltavam até dar os desenhos animados que só davam uma vez por dia e se perdêssemos aqueles, azar, não havia mais, só no outro dia, porque na altura não havia nem Panda nem Nickelodeon nem Disney nem nada, muito menos florisecas e morangos azedos e fora de prazo, e lembrei-me das bolachas que eram redondas e pequenas e sabiam a bolacha e não a corantes e cada uma delas tinha o desenho de um signo do Zodíaco, acho que se chamavam Catraias, e eu ficava furiosa porque só encontrava os Gémeos e os Aquários e os Carneiros, era raro encontrar os Sagitários e pensava aqui para com o meu contador de minutos que raio é que a fábrica das bolachas teria contra os Sagitários, era uma injustiça, coitados de nós, que já não nos bastava fazermos anos em cima do Natal e só recebermos uma prenda que dava para as duas coisas, que grande chatice, para ainda sermos discriminados só porque havia um gajo qualquer que não ia à bola com os centauros que praticam tiro com arco, e pronto, senti uma certa saudade e uma onda de nostalgia a latejar no coraçãozito do Coelho Branco, mas porque diabo é que deixaram de fazer as Catraias, se fazem tanta coisa porque não fazer aquelas bolachinhas para gáudio dos monstrinhos das bolachas como o meu, enfim, tanta coisa que se perdeu, mas ao mesmo tempo há tantas coisas novas que estes pequenos prazeres, como mordiscar as Catraias enquanto se viam os desenhos animados, já não têm importância porque se antes não tínhamos quase nada agora temos tanta coisa que não conseguimos dar conta de tudo, e o ritmo alucinante dos dias de hoje leva-me a pensar que isto não passa de um erro, como se Deus estivesse a assistir ao filme da nossa existência e se tivesse aborrecido tanto que carregou no botão fast forward, ou então que alguém se enganou na velocidade de rotação da Terra e ela está agora a girar mais depressa como se fosse um tapete de corrida do ginásio que se acelerou demasiado (corre, coelhinho, corre, senão cais do tapete).
25/Janeiro/2008

A ouvir: Drive, REM

As botas de A Flor do Meu Segredo

Há uns dias uns sapatos que me magoaram os pés fizeram-me lembrar um filme magistral que Pedro Almodovar realizou há uns anitos, uns treze, se não estou enganada, chamado La flor de mi secreto. A protagonista, uma Marisa Paredes absolutamente fenomenal, era uma escritora de romances cor-de-rosa que tinha uma vida amorosa desastrosa, entregue de corpo e alma ao marido Paco que já não queria saber dela para nada, e não é preciso irmos à ficção para estas coisas acontecerem, e há mais histórias destas do que pensamos porque é preferível enfiar a cabeça na areia como a avestruz (que por sinal não faz isso coisa nenhuma, mas é um preconceito que nos enfiaram a todos na cabeça, talvez haja alguma explicação sobre isso num livro chamado O livro da ignorância geral que ainda não li mas estou morta por o fazer), mas estava eu a dizer que a Leo/Amanda está presa num casamento que já não tem volta a dar, mas que insiste em manter por não saber o que fazer depois do fim, e a certa altura o marido sai de casa e assim que ele sai cai uma moldura ao chão, e já não me lembro bem como, mas vêem-se uma espécie de berlindes a saltitar no chão a acompanhar os passos do dito Paco, que é militar e tem umas botas que fazem muito barulho e o toc-toc-toc das botas junta-se ao toc-toc-toc dos berlindes ou lá o que é a bater no soalho de madeira, e nessa altura a Leo tem umas botas calçadas que lhe apertam os pés e a magoam, e sai para a rua completamente desnorteada com as ditas botas a esmagar-lhe os pés, mas ela não quer tirá-las porque foi o Paco quem lhas ofereceu, mas a certa altura a dor é demasiado insuportável e ela tenta tirá-las mas não consegue, e cruza-se com uma manifestação na rua, que por acaso até era real e o realizador aproveitou-a para o filme, enfim, e pede a um jovem que ia a passar para a ajudar a tirá-las, porque sozinha não consegue, e o rapaz quer tirar-lhas mas também não consegue, e há muitas e muitos Leos por aí que querem tirar as botas que lhes apertam os pés, as botas de uma relação que só nos magoa mas que não queremos tirar porque senão ficamos descalços e já não sabemos viver assim, ou as botas de uma existência que não queremos e que nos pesa na alma mas que não conseguimos tirar, ou as botas de um emprego que nos atrofia e que nos suga a alma e a inteligência e a juventude a ponto de nos tornar zombies, mas que não podemos largar porque quem é que paga as contas (e a Euribor!, ai meu Deus!, o monstro que povoa os piores pesadelos da geração Heidi e Tom Sawyer), ai de nós se tirarmos as botas, ficamos descalços e descalços não podemos andar, e há poucas botas dessas à venda, a nossa única hipótese é comprar botas que não duram para nada a troco de um recibo verde de papel que nem reciclado deve ser, botas que duram um mês ou dois e que nem sequer nos protegem condignamente os pés que ficam cheios de bolhas mas já não há urgências para podermos ir lá tratá-los, e passamos a nossa existência de Coelho Branco a correr de um lado para o outro a rezar para que apareça nas nossas vidas um Gato das Botas que nos arranque as botas miseráveis que temos calçadas e nos traga a fortuna que o bichano da história trouxe ao filho do moleiro. Mas isso é coisa que só acontece nos contos de fadas…
23/Janeiro/2008

A ouvir: Precious, Depeche Mode

Hamsters e Homens


Não, não vou dissertar sobre alguma versão retorcida do clássico do Steinbeck, God rest his soul. Lembrei-me agora de uma piada que me mandaram uma vez por e-mail, que é aquela coisa com que hoje em dia mantemos contacto com a ex-colega de trabalho que emigrou para Moçambique ou que substitui os recados na porta do frigorífico da esposa para o marido ou vice-versa, do género «compra leite» ou «vai buscar o casaco à lavandaria», e que substituiu as cartas e os postais, que hoje ou são contas para pagar ou publicidade, ou até nem isso porque há muitas entidades que em nome do ambiente e das arvorezinhas que todos os anos são cortadas decidiram optar pela facturação electrónica (ambiente, uma ova!, é tudo uma questão de redução de custos porque o papel é caro e os envelopes e os selos também, e até a cola para colar o envelope e a tinta custam dinheiro, pobres das árvores que merecem e muito ser protegidas, mas que pagam as favas por causa da visão economicista dos nossos gestores), enfim, estava eu a falar do e-mail, de hoje não usarmos cartas nem postais, embora não me conste ainda que a Hallmark ou outro fabricante de cartões postais tenha falido, bem, estou outra vez a perder-me, e trocamos e-mails com a ex-colega que faz fatias douradas no Natal em Moçambique mas não usamos o telefone para o que quer que seja a ponto de os aparelhinhos de disco que tínhamos nas nossas casas quando éramos miúdos terem ganho teias de aranha ou se terem transformado em peças de museu, usamos sim os telemóveis topo de gama que servem para tudo menos para falar, porque até servem para enviar os ditos e-mails, mas pronto, vamos lá à piada, era um vídeo de um homem de fato e gravata, com uma pasta na mão, do género daqueles que todos os dias se atropelam uns aos outros na rua na pressa de chegar ao emprego (corre, coelhinho, corre), mas que estava numa roda daquelas dos hamsters, ou como os porquinhos-da-índia. E fiquei a pensar com os meus botões se não seríamos todos uns hamsterzinhos a correr nesta roda gigante chamada Terra, que também gira sobre si mesma em volta de um eixo, e imagino quantos terão sido transformados em churrasco só por terem dito isto que disse agora, que a Terra gira sobre si mesma enquanto roda em volta do Sol, enfim, adiante, que a Inquisição já lá vai, e o hamster corre e açambarca a comida nas bochechas para depois comer mais tarde escondido no quentinho do ninho, mas é estranho porque nem todos têm ninho, têm um apartamentozinho num bloco anódino no meio de um conjunto de blocos anódinos onde vivem outros hamsters igualmente anódinos, hamsters que só conseguem procriar uma vez com muita sorte porque hoje em dia não há dinheiro para mais crias, e também há hamsters que nem pensam em açambarcar comida, engolem-na quando podem não vá vir outro hamster maior e roubar-lha, ou então simplesmente consideram que não vale a pena guardar a comida porque no dia seguinte irão correr outra vez para a roda e ganhar mais dinheiro para comprar mais comida que depois não têm tempo de comer porque estão demasiado ocupados em fazer a roda girar.
E realmente é o que todos somos, uns hamsterzinhos a correr em volta da Terra para a fazermos girar, depressa, depressa, mais depressa (corre, coelhinho, corre, não vá alguém apanhar-te, alguém que não sabes quem é nem se realmente corre atrás de ti para te apanhar, mas corres na mesma porque é só isso que sabes fazer).


22/Janeiro/2008


A ouvir: Tower of Song, Leonard Cohen

Corre, Coelhinho, Corre

Tique-taque, tique-taque, tique-taque… Por vezes tenho a sensação de ter dentro da cabeça uma bomba-relógio prestes a explodir. O tempo não pára. Não temos tempo para nada. É levantar da cama, tomar banho, vestirmo-nos, tomar o pequeno-almoço, acordar o bebé, dar-lhe de comer, mudar a fralda, vesti-lo e deixá-lo prontinho para o pai o levar para o infantário porque hoje em dia não é como antigamente, as mães têm de trabalhar fora de casa porque o dinheiro não chega, depois sair de casa, apanhar autocarro até à estação de metro, apanhar o metro até à estação de comboio, apanhar o comboio e depois de sair subir a rua a correr para chegar a tempo de picar o ponto a horas, trabalhar, trabalhar, trabalhar, e depois sair e fazer o percurso inverso, sempre a correr porque somos como o Coelho Branco, chegar a casa, enfiar o jantar do bebé no microondas para o aquecer enquanto despimos o casaco e descalçamos os sapatos, dar-lhe de comer por entre birras e colheres de sopa atiradas ao chão, sempre com um pato amarelo de brincar a grasnar um quá-quá furioso, como que a dizer «come-a-sopa-come-a-sopa-come-a-sopa», fazer o jantar dos adultos, comer à pressa enquanto enfiamos mais umas colheradas de arroz ou massa na boca da criança, enfiar a loiça suja do na máquina, dar banho ao bebé, vesti-lo e deitá-lo, para depois por roupa a lavar enquanto se arruma tudo aquilo que está espalhado pelo chão até à hora de a máquina acabar de lavar para depois se estender a roupa e ligar a máquina de lavar loiça, vestir o pijama e finalmente agarrar no computador para se trabalhar mais duas horas ou três até ficarmos a cair de sono, porque hoje em dia não se consegue viver só com o ordenado que ganhamos no emprego, e finalmente, já com os olhos raiados de sangue de tantas horas a olhar para o monitor palpitante, ir para a cama e esperar que o bebé não interrompa o nosso sono de cinco ou seis horas mal dormidas, sempre alerta não vá não ouvirmos o despertador tocar no outro dia de manhã para começar tudo outra vez. Corre, Coelhinho, corre, que já estás atrasado. Não sabes que horas são mas sabes que as que tens não te chegam para tudo o que tens de fazer. O relógio não pára, tique-taque, tique-taque, tique-taque, e o teu coraçãozinho de coelho já vai fazendo tique-taque como ele.
22/Janeiro/2008

A ouvir: Time, Pink Floyd