Esperteza saloia # 2

Será que com relógios de borracha o tempo passaria a ser elástico?

Crueldade intolerável




Ok, admito que os Três Porquinhos tenham agido em legítima defesa ao limpar o sebo ao Lobo Mau - afinal, ele queria comê-los - mas era preciso ser terem-no cozido numa panela de água a ferver? Não podiam simplesmente ter-lhe dado uma paulada na cabeça ou usado um taser como aqueles da prisão de Paços de Ferreira? Agora cozer o bicho vivo? Eh pá, não havia necessidade, isso só se faz é às lagostas...

Francamente, senhor Perrault!

Onde é que o senhor Perrault teria a cabeça para fazer a pobre Cinderela usar sapatos de cristal? Mas será que não pensou que a desgraçada ia ficar com os pés todos escortanhados? Já não basta sacrificar os pés aos saltos altos e às dores nas costas e aos joanetes, como ainda por cima, em vez de um cabedal macio vindo de uma bonita vaquinha de olhos mansos a comer ervinhas verdes, o diabo dos sapatos tinham de ser de cristal? Ó Perrault, imaginas o que é ter de dançar com o Príncipe durante horas a fio com os pés metidos dentro de vidros? Vê lá se escreves a história como deve ser e pões a garota a usar uns belos Louboutins ou uns Jimmy Choos, pode ser? A malta agradece.

Flower power


Gosto de narcisos porque sim. São amarelos, vivos, bonitos e solitários. Gosto de flores solitárias que se erguem altivas a exibirem a sua cor brilhante como uma mancha de vida. Do amarelo-vivo dos narcisos, uma mancha de sol radioso, do perfume doce e a seda das pétalas, passar a ponta do dedo pelo rebordo dentado do cálice, de ver o caule elegante e esguio orgulhosamente só a elevar a sua coroa gloriosa para os céus.

Gosto de túlipas. Não importa de que cor, se bem que as que mais me agradam são as brancas. Nunca estive na Holanda, a terra das túlipas, mas há uma terrinha onde estive há bem pouco tempo que espalhou túlipas em todas as muitas rotundas que por lá há. Vermelhas e amarelas, formam manchas de cor incongruentes e deslocadas no meio do asfalto. Gostava que houvesse túlipas pretas. E azuis. Talvez um dia haja.
Gosto de violetas. Roxas, pequeninas, frágeis e delicadas. As que apanhava em pequena tinham caules que mais pareciam linhas, e que começavam a retorcer-se como uma bicha-cadela pouco depois de terem sido colhidas.

Gosto de miosótis. Gosto dos minúsculos pontinhos de um azul-celeste por entre folhagem repolhuda. Em criança diziam-me que se chamavam olhinhos-de-nossa-senhora, mas sempre me recusei a usar essa designação: o anúncio das latas de tinta dizia que eram miosótis, e talvez tenha sido essa a minha primeira tentativa de rejeição dos dogmas católicos que me tentavam impor, como os trovões serem os ralhetes de Jesus ou o facto de se comer carne na Sexta-feira Santa significar um bilhete só de ida para o inferno.
Há muitos anos que não vejo miosótis. É pena.


Gosto de lírios.

Não gosto de dálias, as pétalas fazem-me lembrar cascas de cebola ressequidas.

Gosto de hortênsias. Gostaria de ter hortênsias em casa, mas tenho tanto jeito para cuidar de plantas que nas minhas mãos nem os cactos sobrevivem.
Gosto de nenúfares.

Não gosto de cravos nem cravinas, não por causa do 25 de Abril, mas porque fazem-me sempre lembrar cemitérios. A mãe de um miúdo que morreu atropelado e que andava na minha escolha tinha sempre cravos brancos no túmulo do filho. Têm um perfume enjoativo, que me parece cheirar a mortos.

Gosto de rosas. Há-as cor de sangue, de um vermelho-escuro aveludado, cor de chá, brancas e de uma infinidade de outras cores. À semelhança das túlipas, também não existem rosas pretas. Pergunto-me por que razão não existem flores pretas. Talvez um dia haja.


Gosto de amores-perfeitos. Pequeninos e aveludados, com gradações de cor nas pétalas. Fazem-me lembrar máscaras de carnaval. Não sei dizer porquê, mas parecem-me sempre que têm dois olhos ali no meio a espreitar.

Gosto de malmequeres amarelos, dos silvestres. Em criança costumava agarrar numa linha branca e numa agulha para fazer colares com eles, uma imitação caseira e barata dos colares de flores do Havai. E arrancar-lhes as pétalas uma a uma, mal-me-quer, bem-me-quer, e na maior parte das vezes o mal ganhava.

Gosto das camomilas e de umas florezinhas parecidas com as camomilas e das quais nunca soube o nome, e que costumava meter numa frigideira de brincar a fingir que eram ovos estrelados, e de lhes arrancar as pétalas brancas fininhas para fazer de conta que era coco ralado para decorar os bolos de terra chocolate.

Gosto de ter flores em casa. Gosto de ver aquela mancha viva de vida ali na jarra, embora estejam mortas a partir do momento em que são colhidas. Amarelas. Vermelhas. Roxas. Cor-de-rosa. Cor de laranja. Lilases. Brancas. Azuis. É indiferente. Gosto de flores.

(Só para lembrar que a Primavera está quase a chegar.)

«Não têm pão? Que comam bolo!»

A frase foi dita por Maria Antonieta (não, desenganem-se, ela não falou em croissants, apesar de ter sido ela, uma austríaca, a levar para França aquilo que é hoje considerado um ex libris gaulês), e ontem ao deambular pelos corredores de um Continente lembrei-me dela, já que quis armar-me em saudável e comprar pão escuro e com sementes, mas que raio de ideia a minha, em tempo de crise querer comer pão, onde é que isso já se viu, isso é coisa fina, dizia eu que queria comprar um pacote com um pão escuro e com sementes, até que olhei para a etiqueta do preço, uns insultuosos 1,99 €, e pensei «bolas, isto está caro» e pousei o pacote, e não teria pensado mais nisso se não tivesse olhado fortuitamente para a bancada em frente onde se alinhavam caixas e caixas de bolos embalados, fatias de bolo mármore a pingar gordura, bolos de arroz luzidios de margarina, e até pastéis de feijão em caixinhas de plástico com uma dúzia, e foram estes últimos que me indignaram de sobremaneira, porque custavam menos 50 cêntimos que um pão saudável feito com farinha não refinada, com farelo incluído e tudo, e umas sementinhas à mistura, e pensei que realmente a Maria Antonieta é que tinha razão, o melhor mesmo é comer bolo, que até é mais barato que o pão, mas ainda assim por descargo de consciência comecei a analisar os preços dos outros pães expostos, incluindo quatro fatias de um pão alentejano por 1,80 €, enfim, os bolos industriais a pingar gordura é que são bons, para quê dar à criancinha um pãozinho com manteiga ou fiambre ou queijo ou mesmo compota quando se pode dar-lhe um bolo, se dá menos trabalho pegar no dito e meter-lho à frente do que pegar no pão, agarrar numa faca e meter-lhe qualquer coisa lá dentro, que chatice ter de perder esses trinta segundos — o nosso ritmo de vida é cada vez mais acelerado mas acho melhor dispensar esses trinta segundos do que depois ir perder horas aos consultórios médicos em consultas de nutrição e tratamento da obesidade —, mas pronto, ainda pensei que o defeito seria do Continente, que atribuem preços estapafúrdios aos produtos a seu bel-prazer, mas ao chegar de manhã à cafetaria da empresa paguei por um simples pãozinho com manteiga apenas menos 5 cêntimos do que por uma bola com creme (com a entrada em vigor do Acordo Ortográfico vai ser assim que vou passar a designar as bolas-de-berlim que passarão a ser bolas de Berlim mesmo que sejam feitas em Alguidares de Baixo), e uma vez mais isto leva-me à Maria Antonieta e à sua declaração tão criticada que lhe custou a cabeça no sentido literal, «não têm pão? Que comam bolo!»

O poder de uma imagem

Há dias uma notícia acerca de um fotógrafo que se suicidou por causa de uma fotografia de uma criança em avançado estado de subnutrição que estava prestes a ser devorada por um abutre fez-me lembrar uma imagem que vi há uma série de anos na exposição World Press Photo no CCB, e que por vezes ainda me vem à mente quando fecho os olhos. Não me recordo qual o ano em que esteve a concurso, sei que foi algures na década de 90, nem muito menos o nome do fotógrafo. Sei que era a preto-e-branco, e que retratava uma mulher morta, com a cabeça inclinada para trás e com os olhos imobilizados e vítreos dos mortos, com uma criança pequena, nua, que chorava enquanto as moscas pousavam sobre o cadáver. Na imagem viam-se claramente os sulcos das lágrimas da criança em pranto, a descerem-lhe pela carinha abaixo, deixando-lhe rios sobre o pó e a terra que lhe sujavam o rostinho angustiado. A nitidez era tal que quase ouvia o choro da criança, os gritos dela pela mãe morta, o pânico e o terror que ela devia estar a sentir.
Recordo-me que fiquei ali sozinha, parada diante daquela demonstração de que o inferno existe, algures no meio de um conflito qualquer em África que dera origem a um genocídio — no Ruanda, Somália, Darfur, um qualquer, ali as guerras são tantas e tão sangrentas que por vezes baralho-as todas —, e tenho ideia de que demorei algum tempo até conseguir obrigar as minhas pernas a avançarem e a afastarem-me daquele horror. Fui-me arrastando ao longo do resto da exposição sem prestar grande atenção, com os olhos mortos da mulher cravados na minha mente.
Com os meus dezoito anos da altura, creio que não foi ver a morte que me impressionou daquela maneira — já tinha visto pessoas mortas antes, e de perto —, mas antes a espécie de imortalização da morte que aquela imagem constituía. O fotógrafo parecia ter conseguido prender o instante em que a vida se esvai, o momento em que os olhos se imobilizam, vítreos, como se fossem eles o indicador da vida, e não o bater do coração.Na altura era Verão, Setembro, talvez, mas recordo-me de ter tremido de frio. Saí do CCB, enfiei-me no eléctrico que ia para a Cruz Quebrada e assim que entrei no quarto sentei-me em cima da cama, a olhar para a parede em silêncio, tomada por um misto de náusea, horror, incredulidade e raiva, e um sem-número de emoções diferentes e contraditórias. Durante alguns dias a comida custou a passar na garganta, e com o tempo aquela sensação de agonia acabou por se esbater. Ainda assim, dificilmente irei esquecer aqueles olhos vítreos de papel que me fitavam, mortos.

Uma questão de mamas

O mais recente escândalo nos States — há muitos, um deles foi a Aguillera ter-se enganado a cantar o hino no Super Bowl, que horror, já não bastava o mamilo da outra ter saltado e agora este crime, enforque-se a criatura, queime-se e atire-se os restos mortais aos cães, uma pessoa que se engana a cantar o hino americano não merece respirar — estava eu a escrevinhar sobre outra coisa e perdi-me, já é hábito, e o escândalo é que uma das meninas de Glee, a Lea Michelle, apareceu com um graaaande decote na capa da Cosmopolitan (e isto depois de uma sessão para a GQ que já tinha feito correr muita tinta, enfim, a miúda não aprendeu e voltou a fazer das dela), e então os paizinhos ficaram muito ofendidos com o decote da rapariga (que por sinal é maior de idade), indignadíssimos por a revista mostrar que a angelical Rachel tem mamas, que horror, como é possível, uma menina que a minha filha de cinco aninhos ou o meu anjinho de oito anos idolatra tem mamas, ai que nojo, como é possível isso acontecer, que desgraça, eu aqui a tentar esconder as Hustler e as Playboys e as Penthouse e outras que tais junto com os dvds pornográficos e vai a Cosmopolitan mete as maminhas da Rachel na capa, para estarem expostas em todos os quiosques do país — bem, todos não, houve um no Texas que baniu a revista das bancas —, repito, como é possível mostrarem às criancinhas que a Rachel tem mamas, que ela é uma mulher, ídolo de criancinhas e adolescentes, sim, mas mulher, e caso não se saiba em terras do tio Sam, toda a gente tem mamas, até mesmo os homens, o que julgam?, um defeito evolutivo qualquer fez com que os homens continuassem a ter mamas mesmo que elas não lhes sirvam para nada — ups, estava a esquecer-me que em algumas partes dos States o criacionismo é lei e que o evolucionismo foi banido em muitas escolas —, enfim, estamos a falar de um país onde um grupo de cidadãos quis fazer com que as mães fossem proibidas de amamentar os filhos porque a amamentação causava prazer sexual às mãezinhas, grandes taradas, mas pronto, não tem mal deixar-se garotas de treze anos meterem implantes de silicone nas mamas e botox na cara para prevenir as rugas (esperem aí, não foi a Rachel que fez isso? Se não foi ela, foi uma outra qualquer do Glee), dizia eu que não faz mal miúdas de treze anos se recauchutarem todas, não faz mal as criancinhas verem vídeos musicais onde a única coisa que se vê são rabos a abanar, rabos, rabos e mais rabos, quanto maiores, melhor, mas uma mulher, maior de idade (Lea Michelle tem vinte e quatro anos), ser fotografada para a capa de uma revista com um vestido preto com um decote pronunciado já é um escândalo a nível mundial...
15/02/2011
A ouvir: Search and Destroy, 30 Seconds to Mars