Inimigo público

Sim, já sei que já dei às patinhas por causa da gripe dos porcos, perdão, gripe A, que os porcos não têm culpa da histeria, mas como se costuma dizer na minha terra - e se calhar em muitas outras - vou voltar à vaca fria, e lá estou eu a falar de bichos, é sempre a mesma coisa, há quem diga que quanto mais conhece os homens mais gosta dos animais mas isso é conversa a desenvolver noutro post, estava eu a falar da gripe A, e hoje de manhã em pé de conversa - a língua portuguesa é mesmo gira, «pé de conversa» como se as conversas tivessem pés e mãos, enfim - hoje de manhã falou-se da gripe e perdoem-se se estiver enganada, mas na minha humilde opinião de coelho desbocado acho até que estamos em vantagem em relação aos outros anos, porque gripe que é gripe, existe todos os anos, e o bicho é tão mau que muda anualmente, todos os anos temos de gramar com um diferente e ninguém sabe o que vai sair na rifa, mas este ano o inimigo público nº 1 tem um nome e não há ninguém no planeta - salvo os portadores de deficiência auditiva, que «surdo» é politicamente incorrecto - que não tenha ouvido falar dele, todos sabemos o nome do bicho, o que fazer para evitarmos o contágio, e mais, estamos todos à espera dele como um pelotão de fuzilamento pronto a disparar, já sabemos tudo o que nos é permitido saber sobre a criatura, estamos prontos - uns mais do que outros, é certo - para o embate, e se este ano conhecemos à partida o nosso inimigo, parece-me lógico acreditar que afinal, este ano, longe de estarmos à beira da catástrofe, estamos é em vantagem...

13/08/2009
A ouvir: The Ship Song, Nick Cave

A culpa foi do macaco

Já ando mais do que farta - e se a minha mãe lesse isto diria logo que quem se farta são os burros, não percebo porquê mas parece-me que é alguma reacção reflexa dela ao ouvir a palavra -, estava a dizer que ando mais do que farta das notícias do médico e dos medicamentos e do diabo a quatro do Michael Jackson, anda tudo empenhado em saber porque é que o gajo morreu, olhem, morreu porque morreu, é a única certeza que temos, um dia haveremos de morrer, mas como era o rei, o mundo quer encontrar um culpado, «como é possível, ele não podia morrer, quem foi o filho da mãe que o matou? Alguém teve de o matar», como se lá por o tipo ser o rei da pop não tivesse direito a morrer, as pessoas não se convencem que a obra é que é imortal e não quem a cria, enfim, e lá tratam de investigar e gastar mundos e fundos para tentar encontrar o culpado, com a situação económica dos States no estado em que está e aquela gente anda a gastar dinheiro dos contribuintes numa caça aos gambozinos, alguém tem de ter a culpa, seja o médico que lhe deu calmantes e medicamentos para isto e para aquilo, seja o cão da criada, a vida dele foi um circo e a morte um ainda maior, as pessoas não se lembram que o tipo tinha 50 anos e que há muitos bem mais novos que também já foram fazer tijolo, tudo bem que aos 50 ainda é cedo para morrer mas o que vamos fazer, shit happens, o homem morreu com um ataque cardíaco, e daí?, o Paulo também morreu aos 29 anos com um AVC e ninguém se preocupou em investigar porque é que ele o teve, ninguém acusou as pessoas que lhe deviam dinheiro de o literalmente terem matado de preocupação, mas lá está, o Paulo não era o rei da pop, ainda assim morreu jovem de uma maneira que uma pessoa de 29 anos não podia ter morrido, e no caso dele a culpa deve ter sido do macaco, e quanto ao Michael Jackson não pode ser, as estrelas não morrem, são assassinadas, levadas por aliens, raptadas por homens do governo que as levam para um programa de protecção de testemunhas e passam a ganhar a vida a tirar fotocópias ou a servir bejecas num bar obscuro, enfim, já nem sei o que estou para aqui a escrever, já não dava às patinhas há tanto tempo que acho que já perdi o jeito, mas pronto, o macaco tem as costas largas, e uma vez mais a culpa vai acabar por ser dele.
05/08/2009
A ouvir: Billie Jean, Michael Jackson

12 de Setembro de 1933

12 de Setembro de 1933 era a data de nascimento oficial, aquela que vinha no teu bilhete de identidade, e também aquela que está gravada na lápide da tua sepultura. Mas todos sabíamos que tinhas nascido a 9 de Julho, e era nessa data que havia o bolo, o espumante e presentes, um bolo de canela porque não gostavas de doces e o de canela escapava porque era escuro. Talvez gostasses de bolos escuros porque te davam a sensação de que não levavam o leite que tanto abominavas. Não sei se era esse o motivo, porque nunca tive oportunidade de te perguntar. Havia tanta coisa de que não gostavas que por vezes era mais fácil enumerar aquilo de que efectivamente gostavas. Era curioso, não comias carne nem doces nem natas nem tanta coisa de que não me lembro agora, mas ainda assim eras gordo. Quem olhasse para ti pensaria que comias como um alarve, como aquela médica do centro de saúde que tanto te ofendeu. Feijoadas, grandes bifes, assados, presunto, bolos a transbordar de creme e de natas, chanfanas, caldeiradas, tantas e tantas coisas, e tu, nada. Proteínas, só o omnipresente bacalhau comprado no Manel da Estação ou então trazido de Tui por algum conhecido, na altura em que quase não havia bacalhau à venda em Portugal, umas pescadas de quando em quando, sardinhas pequeninas refogadas, ou então das grandes e gordas, assadas na brasa, uma ou outra solha, e polvo. Lulas não, os tentáculos metiam-te impressão (como se o polvo fosse feito de asas). Os pequenos-almoços nunca variaram desde que me lembro. Todos os dias a mesma malga de café de saco, o teu «café preto» e um bocado de broa. Ah, e uma colher de sopa cheia de açúcar no café. Leite era um ódio de estimação da tua família, não havia um que escapasse, mas vá lá, admitias queijo flamengo uma vez por outra, de preferência com marmelada, e quando começaste a ficar verdadeiramente doente, lá acabaste por aceitar manteiga.
A rotina era de tal forma rígida que quase vinte anos depois ainda me lembro de tudo como se nos tivéssemos visto ontem. Acordavas com o trrrriiiim daquele despertador barulhento de latão, depois vestias-te, tomavas a malga de café com a broa - sempre a mesma malga, não podia ser outra qualquer - e depois ias trabalhar. Vinhas à hora de almoço, comias sempre no mesmo prato de vidro, o único em toda a casa que não era de faiança, com os mesmos talheres, diferentes dos outros porque não gostavas dos garfos e facas e colheres que tínhamos, e bebias sempre o vinho branco da mesma caneca castanha de barro vidrado com videiras. Depois deitavas-te na cama uns minutos e saías outra vez. Ao final do dia saías do trabalho, ias comprar o Comércio do Porto (se fosse sexta trazias também o Tal & Qual e registavas os totobolas e totolotos), e vinhas para casa. Quando dava vestias umas calças velhas e uma camisa com mais anos do que eu e ias cavar para a tua horta de estimação. Depois regressavas, lavavas-te e jantavas, e a seguir deitavas-te no sofá com o gato em cima da barriga a ver o Telejornal. No fim, vestias-te e ias «dar uma volta», o mesmo café de sempre no Café Império, as mesmas conversas com os mesmos amigos, o Calado, o das cassetes, o Bigodes, o Alcides, o Abel e o Russo, e lá para as onze voltavas para casa para no dia a seguir voltar a ser a mesma coisa.
Disto lembro-me, lembro-me de todas as coisas de que não gostavas, da minha irritação quando íamos ao café e obrigavas o empregado a trazer outro café porque querias que fosse numa chávena larga, da massa meada com chouriço de cada vez que a mãe se atrasava e não podia fazer o jantar, lembro-me da teimosia, do apego exagerado aos locais e às coisas, daqueles rituais quase obsessivos de usar sempre o mesmo prato e os mesmos talheres, mas custa-me recordar das coisas boas. Lembro-me de me levares à loja do Baptista e de me comprares invariavelmente um Sumol e um pacote de wafers, que trazia 5 bolachas. Lembro-me dos chocolates que desencantavas do bolso das calças. Lembro-me dos sabonetes e pastas de dentes que nos compravas como presente de aniversário - eras uma pessoa supostamente prática, as prendas têm de servir para alguma coisa. Lembro-me de nos levares às festas dali da zona, do S. João com os martelos, dos carrosséis da festa do Parque, de irmos a Espinho no comboio. Sei que deve ter havido muito mais coisas boas, mas custa-me lembrar-me delas. Talvez porque assim é mais fácil para mim, talvez assim não doa tanto, talvez assim o vazio não seja tão grande.
Parabéns, pai.
09/07/2009
A ouvir: November Rain, Guns'n'Roses

Mais vale tarde do que nunca...

Arranca hoje oficialmente a comissão de inquérito da ONU para determinar «as circunstâncias e os factos» do assassinato de Benazzhir Buttho, ocorrido em 2007. Não é que isso vá servir de muito, mas mais vale tarde do que nunca...
Há algum tempo que sabia que a ONU estava a tornar-se uma espécie de elefante branco, mas esperar dois anos para começar a investigar um assassinato é algo de que nem sequer a polícia portuguesa é capaz.

Bonito de ver

Há uns anos largos, ao vir da estação da CP da Cruz Quebrada a um domingo à tarde e a passar em cima da pontezinha sobre o Jamor para começar a subir a Estrada da Costa, reparei num casal de velhotes que estavam lá sentados num dos banquinhos que por lá havia, e recordo-me de por instantes ter ficado espantada com o cenário. Ambos de cabeças completamente brancas, ele nos sítios onde ainda tinha cabelo e ela com uma permanente irreprensível, ele de fato cor de café com leite, ela de vestido de malha clarinho e florido e sapatos de salto alto, ali os dois sentados, de mão dada, com os olhos mergulhados um no outro, como se não existisse mais ninguém no mundo, muito menos a rapariga que estava a olhar para eles fixamente do outro lado da estrada, e apesar de estar longe consegui ver a expressão de adoração nos olhos deles, aquela adoração de duas pessoas que viveram mais do que uma vida inteira juntos e que ainda assim cada dia sabe a pouco, querem mais, a cada dia que passa o amor aumenta, e a certa altura beijaram-se, como o casal apaixonado que efectivamente eram, e nunca me esqueci daquela cena, decerto já teriam netos, ou quem sabe bisnetos, e estavam ali aos beijos e arrulhar meiguices um ao outro como um casal de jovens com a vida inteira pela frente, e aquela imagem fez-me sonhar, ficou-me na cabeça como uma versão deturpada de O Beijo do Henri Cartier-Bresson, mas igualmente bela, um sinal de que o amor e a paixão não são coisas de velhos.

30/06/2009
A ouvir: Shine, Depeche Mode

Temor e tremor

Na quinta à noite, durante um dos ataques cada vez mais frequentes de insónias, pus-me a fazer zapping e parei no Hollywood, que estava a passar um filme francês chamado Temor e Tremor, e era sobre uma rapariga belga que ia trabalhar um ano para o Japão, a menina Amélie, que no fim do filme acabei por perceber que se tratava da Amélie Nothomb, a escritora, e que o filme era alegadamente autobiográfico, adiante, e as peripécias vividas pela moça na dita empresa, Yumimoto se não me falha a memória - ultimamente tem falhado mais do que a conta, daí não garantir se era mesmo Yumimoto ou Yamamono ou coisa parecida -, e a rapariga era de tal forma humilhada que quase parecia um filme de terror, foi brutalmente destratada por ter falado em japonês durante uma reunião onde entrara para servir cafés (sim, anda-se anos na faculdade, aprende-se a falar línguas dificílimas para tentar singrar no mercado de trabalho e depois vai-se servir café a um bando de idiotas malcriados e mal-encarados de fato e gravata), estava eu a dizer que a desgraçada perguntou aos mal-encarados se queriam café, em japonês, e por esse delito de lesa-majestade um dos superiores, o de terceiro grau se não estou em erro, arrastou-a por um braço e desancou-a, não tinha nada que ter falado em japonês, onde é que já se viu, uma estrangeira a falar japonês, que horror!, e a pobre contestou «mas vocês contrataram-me precisamente por eu falar japonês», o que desencadeou novo ataque de fúria, porque o chefe é que tem razão, e apesar de a submissão daquela gente, não só da menina Amélie como de muitos outros que lá trabalhavam, me ter provocado uma sensação de asco, continuei a ver aquilo, e surpreendeu-me que os japoneses não pudessem olhar para o rosto do chefe quando falavam com ele, tinham de estar de orelha murcha e olhos postos no chão, se o tipo dizia que era preto tinha de ser preto mesmo que fosse amarelo porque o chefe tem sempre razão, e a submissão e subserviência dos orientais sempre foi uma coisa que me complicou com os nervos e que nunca consegui entender, acho que por serem muitos têm de se tratar e ser tratados como autênticas formigas, há o líder, a formiga-rainha, e os outros são obreiros, ninguém conta, só a colónia, e se for preciso morrer pela colónia morre-se de bom grado, adiante, não quero estar a criticar culturas ancestrais mas enfim, e a tal Amélie, uma autêntica invertebrada, teve de ir trabalhar com uma fulana que ela achava linda de morrer mas que tinha tanto de bonita como de cabra sádica e perversa, a menina Mori, que lhe fez trinta por uma linha, mandou-a desempenhar tarefas cada vez mais degradantes ao ponto de a obrigar a ir fazer a manutenção das casas de banho, e eu a pensar «esta tipa deve ter-se esfalfado na universidade e agora está a substituir rolos de papel higiénico para os mal-encarados poderem limpar o cu», e a obstinação da menina Amélie em levar o contrato de trabalho até ao fim só era superada pela subserviência doentia que demonstrava, enfim, e não pude deixar de pensar que no mundo do trabalho já apanhei com alguns sacanas, e foi por uma unha negra que não levei com um cinzeiro na testa atirado por uma chefe tresloucada, mas não cheguei ao extermo da menina Amélie, e nem ao extremo daqueles japoneses da firma Yumimoto ou Yamamono ou lá o que seja, posso não ter cumprido os sonhos da infância, não ter escrito os livros que achava que iria escrever, ter o dinheiro que achava que iria ter, mas ainda conservo o meu cérebro, e isso ninguém poderá tirar-me, ninguém irá fazer de mim uma Amélie.
23/06/2009